quinta-feira, 14 de março de 2013

Sobre olhares e paixões de metrô


Talvez uma das minhas maiores tristezas diárias esteja diretamente relacionada às "paixões de metrô": aquelas momentâneas, consumadas apenas por algumas trocas de olhares - às vezes nem isso! - e encerradas bruscamente pela necessidade de descer na próxima estação.
O trecho Luz - Ana Rosa foi feito em um piscar de olhos. Eu estava distraído, e a encarava como se não tivesse nada a perder - e, de fato, eu não tinha. Ela sabia que eu a estava encarando, e movia seus olhos vagarosamente em minha direção. Nos instantes em que nossos olhos se encontravam, ela abaixava o rosto e exibia um sorriso desajeitado, mas não tão desajeitado quanto o meu.
A troca de olhares continuou, estação-após-estação. Fomos interrompidos somente uma vez, no momento em que uma senhora se colocou entre nós. Numa reação instantânea, me movi para o banco ao lado; continuei olhando para a minha paixão de metrô e arquitetando situações e diálogos perfeitos, os quais eu sabia que nunca aconteceriam.
Chegamos à Ana Rosa - na hora, eu estava tão concentrado no nosso "jogo" de olhares que nem percebi em qual estação estávamos. Infelizmente, era o destino da minha paixão de metrô. Ela desceu e meu olhar a seguiu, mesmo que involuntariamente, até que as portas do metrô se fecharam e eu não consegui mais vê-la. O jogo havia terminado, e não havia vencedores.
Talvez uma das minhas maiores tristezas diárias esteja diretamente relacionada às "paixões de metrô", mas acho que esse é o meu tipo preferido de paixão, já que é bem mais fácil se apaixonar por apenas alguns minutos do que por toda uma vida.

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