quinta-feira, 21 de março de 2013

Sobre a linha tênue entre ilusão e decepção

Na noite passada, aquele velho relógio parecia ter algo de especial. Seus ponteiros, quase tão grandes quanto a minha ansiedade, pareciam arrebatadoramente estagnados. Eu o encarava incessantemente, e, por alguns momentos, tive a sensação de que nenhum minuto havia se passado.
A intensidade com que eu observava o relógio acabou despertando a atenção de uma das garçonetes do local, que decidiu perguntar se eu estava bem. Não percebi que ela estava se dirigindo à mim, e por isso hesitei alguns segundos para respondê-la. "Sim. Só estou ansioso". Ela, então, decidiu perguntar se eu estava à espera de alguém. "Sim. Marquei às 20h com a garota com quem quero me reconciliar". Foi aí que toda a minha ansiedade se dissipou: "Mas já são 21h30, senhor".
Não, a minha garota não apareceu. Ao invés dela, quem deu as caras foi aquela estranha sensação de vazio, que vez-por-outra aparece, sempre que percebo que me iludi novamente. As lágrimas também apareceram, e foram tantas que não couberam dentro dos olhos, e escorreram por toda a extremidade do meu rosto. Chorei copiosamente na mesa do restaurante, observado pela garçonete e por todas as outras pessoas que ainda estavam por lá.
É duro ter de admitir que tudo isso não passou de uma ilusão; duro também é ver que a ilusão em questão em nada se relaciona com as ilusões que dão o tom aos números de mágica. Na noite passada, a mágica estava por todo o ambiente, mas o número final, infelizmente, era o do desaparecimento. Na noite passada, o cenário parecia estar plasticamente moldado para uma ilusão. Hoje, porém, até quem me vê lendo o jornal na fila do pão sabe que eu me decepcionei.

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