Não. Risque o "era uma vez". Apague, por favor. Ela não quer começar com "era uma vez", ela quer tudo, menos isso. Afinal, tudo o que começava com "era uma vez" teria que terminar em um castelo e com um "fim" escrito em uma caligrafia desajeitada, mas com uma precisão incrível.
Ela não queria o castelo e tão pouco queria a caligrafia desajeitada. Não queria a valsa, não queria o violino, não queria mais ouvir essas histórias perfeitas, já que nesse reino distante a perfeição não existia mais. Ela não queria a caminhada pelo campo, não queria o salto alto, não queria o vestido rodado, não queria se balançar conforme a música. Não fora feita para se balançar conforme a música, já que a melodia indicava que a perfeição poderia estar voltando, mas não era isso que ela queria.
Se balançava aleatoriamente, conforme a música que vinha de dentro, aliás, tudo era a base disso. Só dançava conforme a música se o compasso do coração se fundisse com o interior de suas memórias, aquelas que a levavam de volta à uma terra cercada de incertezas e rodeada de velhas histórias, que se mantinham vivas mesmo com o passar do tempo.
Ela não queria mais vivenciar todas essa mentiras, não, ela não precisava disso. Ela não queria sonhos que levariam a lugar nenhum, ela preferia que o lugar nenhum se transformasse no lugar dos sonhos. Não queria as estrelas, não queria o príncipe encantado, não queria misturar suas lembranças. Lembranças que estavam em um papel surrado, diluído pelo tempo e escondido a sete chaves, dentro de um livro que contava a mais perfeita das histórias, aquelas que começavam com o "era uma vez".

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